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domingo, 21 de dezembro de 2008

Triste vida de operária

Sempre marchando!
Tudo pelo bem da rainha,
tudo pelo bem do formigueiro

Minha vida para arrumar alimento, proteção, segurança...
Minha vida para criar as larvas
que não se lembrarão de sua infância
E que um dia darão suas vidas para arrumar alimento,
proteção segurança,
Minha vida.

Sim senhor, morro por esta causa,
Cumpro tarefa mais tortuosa!
A rainha precisa? Vou atrás de um ‘que seja’ sem fim.

Estou atrasada, tenho que ir depressa
Não há tempo para sentir frio, dor,
Tampouco o delicado perfume de alguma flor

Primaveras vêm e vão, é tudo a mesma coisa
Amor, paixão? Coisa de cigarra,
Que vive a cantar e não tem preocupação

Com licença, vou-me logo a trabalhar
Tenho folhas – muitas – a carregar.

Enxurrada de formigas.
Olho para uma, para outra
acho que vi essa na floresta
Daquela outra fui babá
Olá, não me reconhece?
Ah, deixa pra lá, estou muito ocupada para me abalar.

O inverno chegou forte e impetuoso,
Mas com formigueiro abastado.
Que belo é ver o fruto de tanto trabalho

As pernas fraquejam, já não tenho tanta força
Cheguei ao fim da vida, e de que tudo isso adiantou?
Passaram-se horas, dias, meses e até anos
A vida toda se foi, se esvaiu como areia entre os dedos,
Ou pétalas de rosa a desfalecer no fim da primavera.

Perdi a primavera, com todas as cores e sensações
Perdi a metamorfose – de horrenda larva à exuberante borboleta.
Será que fiz bem?
Um dia, por alguém serei lembrada,
Mesmo que por fagulha de instante?

Perdi minha vida,
Perdi meu tempo, paixões e amores
Mas agora não há como escapar.
Fiz tudo pelo bem da rainha, pelo bem do formigueiro.


Monique, verão de 2008

Um comentário:

Rafael Jambas disse...

Cara, muito forte esse poema. Muito forte.
"Estou atrasada, tenho que ir depressa
Não há tempo para sentir frio, dor,
Tampouco o delicado perfume de alguma flor" Nem paixões, nem amores...tudo pelo formigueiro, que não reconhece esforço e nem retribui.
É triste essa vida de operária.

E me dá um medo, porque isso realmente passa de imposição à consciência e comodismo.
- "As coisas são assim mesmo". Tudo pela rainha, tudo pelo formigueiro.